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Parou entre a porta. Ficar ou partir?

O elevador aflito esperava sua entrada. Ficar ou partir: entre falar e agir, os antônimos constantes das poucas certezas e muitas dúvidas. “O medo de me machucar”, você diz. O que seria isso, baby? Você nunca teve a intenção de fazer morada em mim. E eu, eu prometi que hoje me pegaria no colo na sua partida, porque já tinha decidido no meu coração que você não deveria ficar. Mas quando a gente finge não existir as situações na nossa vida, a demora se faz perene. Aí eu te encontro e há sempre uma festa aqui dentro que preciso conter, fechar as janelas e me conduzir sozinha sem música de fundo. Eu passei pelo furacão e tô olhando o que sobrou dessa casa. Por isso, pinto, bordo, escrevo. Escrevo pra me acalmar, enquanto você dorme e não percebe que saí debaixo dos seus braços. Vago pelos cômodos, como uma fantasma, brincando com as entreluzes que invadem as janelas. A dor, ela não é a casa inteira. Agora é um cômodo que vou mudar o tapete, trocar os móveis, acender outro incenso e pedir p...

Chega desse vai e volta

Você diz que escreveu um texto...eu escrevi um dicionário, eu escancarei em outdoors da cidade, rascunhei a próprio punho uma enciclopédia do nosso ciclo e de como foi nossa versão juntos. Pintei minhas paredes, o chão, a mesa, a sala. Rabisquei na areia também, mas o mar levou. Eu disse que te amei, mas que foi efêmero. Não durou! Eu e você não resulta em nós dois. A gente era alma gêmea só pra transmutar. Já passamos por isso antes, em outras vivências, outras vidas. Por isso, a vulnerabilidade. Você ajeita o bigode mal feito e diz que não sabe encerrar ciclos. Mas você me deu o que tive de mais lindo, e invariavelmente me tirou. Mas isso não é um julgamento ou uma sentença de culpa. Eu tive minha própria parcela de decisão. De falta de coragem de a vida gerar. No final, a decisão sempre foi só minha, não importa o que me falasse. Mas isso, isso me atravessou. Eu chorei lágrimas infinitas, me engasguei dormindo, me esqueci o que são noites tranquilas de sono. Nesse...

Me levantar das cinzas e da fumaça

Quando a pior coisa acontece, e todas as coisas que eu temia vêm chamando, diante do mundo que eu mesma construí. Tudo começa a queimar e depois a cair e a vida que eu conhecia vai ficando turva. Mas eu acendo as chamas e peço para ela transmutar as coisas que criei. Tudo isso desaparecerá com o fogo, deixando nada além de cinzas no chão para o vento levar. Neste lugar de sonhos quebrados, você consegue me enxergar e sentir o desespero latente nos meus olhos? Imagino que não, você nem sequer pode me abraçar neste momento. Outros colos me sustentam nesse momento que meus pés não encontram o chão. Mesmo assim, você entrou nesse ônibus que atravessará muito mais que cidades e me deixará imaginando por quê? A vida que construí eu não sabia o custo. Mas talvez alguns custos não são feitos para nós sabermos. Eu precisava, no meu coração, que você ficasse. Mesmo sabendo que, do meu coração, você tinha que ir. Eu não ainda sei normalizar os términos, mas sempre soube respeitar que todo cic...

Para além dos meus quereres

Se eu sou rio como poderia me permitir entrar na sua piscina suja. Repleta de situações mal resolvidas e falta de atitude. Eu puxei uma cadeira do lado de fora e tentei mostrar o que eu via na superfície, algo que fizesse você se movimentar. Foi vendaval, lavagem de roupa suja, flutuar nas nuvens, viver um dia de cada vez. Foi entrega e poucas (ou muitas) verdades ditas. Tampei meus ouvidos para todas as vezes que você já tinha dito “não”. Naveguei sem bússola. Eu sendo mar e rio, adentrando profundamente sua piscina. Sua energia. Nossa energia. Explodimos em outro ser navegante das minhas próprias águas extensas. Ventre fértil, apenas na explosão de cores, fomos transmutar. Eu e você! O afeto que você me foi não deixou de existir, apenas não me cabe mais. É preciso fluir no movimento que o ressignificar exige. Me agarro aos fatos e ações para além dos meus quereres. Entendendo aonde posso, na leveza e parceria, construir lugares de não rompimento. Sou mulher livre, mas de solo firme. ...

Destinatário

Eu não costumo nominar  minhas escritas   Mas hoje chamei esses  rabiscos de  ‘Bom dia!’ Porque você me inspira de um jeito  Peculiar, nu e cru, leve e sombrio,  meio desatavio.  Por isso, te registro aqui  num reconectar com uma  parte da minha inspiração  que estava adormecida.  Tudo que vem de você  me toca mais fundo  Você me despiu inteira  sem tirar uma peça  do meu corpo E então começamos  a viver timidamente  Aquilo que brotava  espontaneamente  Pelo menos ressoou aqui Nunca sei o que se passa aí E tudo bem,  agora me basta assim Eu não te toco,  mas te sinto de longe  Mesmo assim é injusto  que o sentimento não seja  o suficiente  Para te alcançar   Não quero te ver  apenas por telas Do outro lado da vida  Vem logo pra cá! E se isso não der em nada Que seja poesia pra gente Simples e intensa, assim! 

Doeu admitir tudo isso

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A gente se encontrou de novo  Anos, meses, feriados, dias alegres  e tristes. Momentos nossos Nem sei falar de mim, sem contar de você Eu adiei, fugi da terapia, de você A gente ia falar do desencontro Desse ciclo se encerrando Eu não quero que você tenha que escolher  Porque a gente sabe que nos escolheríamos  mil vezes, mesmo no escuro Mas algumas escolhas doloridas Adiamos por muito tempo A gente sabe que nem sempre Conseguiríamos lidar desse jeito Você para de me chamar de gata Eu começo a te chamar de mygo Para disfarçar pro mundo O que já não conseguimos disfarçar Você chegou tão lindo Fez a barba do jeito que eu gosto Colocou aquela blusa que eu amo Trouxe o seu violão Insistiu para eu tocar Pra você lembrar dessa parte que só você Adentrou em mim depois do câncer e esquecimentos Acendemos mais um beck Bebemos mais um vinho Acendo o meu incenso preferido que  você trouxe depois de mil voltas na Bahia  pra achar aquele hippie conselheiro que eu me apa...

Escrevo, logo depois nem sinto

Palavras são minha válvula de escape se encaixam, curam, saram  Quando escrevia nos meus diários  Sempre com cadeados E acompanhados das minhas canetas coloridas de gel  Eu não imaginava que seria quem sou Sonhadora de paixões avassaladoras Que me reviram as entranhas  Mas me inspiram Atenta aos mínimos detalhes  Viajante das ideias Meus escapes são por vias orais  Me fazendo presente nas palavras  Já que a bailarina quebrou as pernas  A criatividade fértil sempre me recria  Abraçar o mundo é pesado Mas sentir, ah sentir é uma delícia